PSICANÁLISE E EDUCAÇÃO

Há dois anos, o Colégio Little Star e a Psicanálise caminham juntos em um projeto que nasceu de uma ideia simples, mas fundamental: educar uma criança é também estar atento àquilo que ela ainda não consegue dizer.
Uma criança não chega à escola apenas com sua mochila, seus cadernos e aquilo que já aprendeu. Ela chega com sua história, seus medos, suas descobertas, suas perguntas, seu jeito particular de estar com os outros e de encontrar um lugar no mundo. E os professores também não estão sozinhos nessa travessia. Por isso, nosso projeto de Psicanálise e Educação cria espaços de conversa, escuta e reflexão junto à direção, coordenação e professores, buscando compreender os desafios que aparecem no cotidiano escolar e construir caminhos possíveis para cada situação. Não se trata de transformar a escola em consultório. Trata-se justamente de ajudá-la a sustentar aquilo que lhe é próprio: ser escola. Um lugar onde existem regras e limites, mas também palavra e escuta. Onde aprender é importante, mas onde cada criança pode ser reconhecida para além de suas notas, dificuldades ou diagnósticos. Onde o professor não precisa ter resposta para tudo — porque educar não é saber tudo sobre uma criança, mas poder acompanhá-la na construção de suas próprias respostas. Ao longo desses dois anos, temos compartilhado perguntas, impasses, encontros, descobertas e, sobretudo, muitas alegrias. Temos aprendido juntos que algumas dificuldades não pedem imediatamente uma classificação: pedem primeiro que alguém se disponha a escutar. Que um comportamento pode dizer alguma coisa. Que colocar limites também é cuidar. Que acolher não significa permitir tudo. E que nenhuma criança deveria caber inteira dentro de um diagnóstico.
A Psicanálise nos ensina justamente a preservar esse pequeno espaço de mistério que existe em cada sujeito — aquilo que faz com que nenhuma criança seja exatamente igual a outra. Talvez seja aí que educação e psicanálise possam verdadeiramente se encontrar: não para ensinar à escola como educar, mas para ajudá-la a escutar o que acontece enquanto educa.
Depois de dois anos, seguimos colhendo frutos. Alguns
aparecem nas palavras. Outros, nas mudanças quase imperceptíveis de uma
relação.
Outros ainda surgem quando uma criança encontra um novo jeito de aprender,
quando um professor consegue olhar novamente para um aluno ou quando escola e
família descobrem que não precisam estar em lados opostos. São pequenas
conquistas. Mas sabemos que, na educação, às vezes é justamente de uma pequena
mudança de posição que nasce uma possibilidade inteiramente nova.
Projeto: Colégio Little Star + Psicanálise
Dois anos construindo uma escola que ensina, acolhe, coloca limites e,
sobretudo, continua aberta à singularidade de cada criança e adolescente.
Porque educar também é apostar naquilo que ainda não sabemos que uma criança
poderá inventar.
Maria Odete G Galvão
Psicanálise, psicóloga, professora de psicanálise e diretora do NUPPAC
